Uma resenha para Pokécology

 

Não nego que sou destes "tiozão véio" que cresceu com Pokémon — e meio que nunca largou a jornada Pokémon. Confesso que nunca deixei de lado a franquia, ainda que o interesse mudou com o tempo.

Sou desses que, ao contrário de uma maioria que lembra de Pokémon apenas por conta do desenho no programa infantil da figura da Eliana, ainda me recordo de um certo dia em que o Jornal Nacional falou sobre um incidente japonês envolvendo surtos epiléticos e um desenho infantil na TV.

Ainda lembro de uma antiga edição da revista Veja (que perdi há anos) em que falava sobre os Pocket Monsters, ou "monstrinhos de bolso", matéria de uma página que curiosamente trazia uma singela imagem em 3D com alguns poucos Pokémon da hoje chamada primeira geração — em especial, as figuras do que depois descobri serem Blastoise e Gyarados me chamaram a atenção. E foi quando passei a gostar da coisa.

Pokémon cresceu muito rapidamente — mais do que qualquer um de nós — e hoje é a marca que mais fatura no mundo. Fazer mais dinheiro do que Disney e Mickey Mouse, Hello Kitty e Neon Genesis Evangelion deve dizer algo — mas para nós o importante aqui é o seguinte: parte do segredo do seu sucesso, Pokémon conseguiu a façanha de fazer as pessoas consumirem Pokémon enquanto elas não consumiam Pokémon.

As crianças adoravam conversar enquanto não assistiam o desenho ou jogavam cartinhas e jogos eletrônicos e os adultos desabafavam entre si qual a última maluquice que os filhos tinham pedido e que tinha Pokémon na capa: parece pouca coisa, mas esse é o início de verdadeiros esforços comunitários que se tornaram os termos atuais "fandom" e "comunidade" e que exigem profissionais especializados, chamados community managers.

Não havia fenômenos como Five Nights at Freddy's e Dark Souls, mas na prática Pokémon já fazia as mesmas coisas: os próprios fãs discutiam e vendiam Pokémon enquanto não consumiam. Mistérios como MissingNO, a Pokébola GS e como capturar o Mew montavam uma verdadeira lore comunitária — que dirá da verdadeira maluquice que foi Twitch Plays Pokémon em 2014.

Pokémon cresceu para além do controle. A Nintendo e a Game Freak precisaram criar uma empresa própria só para poder administrar a marca — a The Pokémon Company, que por sua vez também deu origem à The Pokémon Company International e que daqui para frente serão chamadas respectivamente de TPC e TPCi.

Merchandising — cacarecos que geram vendas adjacentes — sempre foram o forte de marcas muito grandes do entretenimento e há aqueles que simplesmente colecionam tudo o que conseguem pôr as mãos.

Às vezes, surge algo que vale a pena comentar. Ouso dizer que o recente lançamento ocidental do livro Pokécology é um destes.


Mais um livro de Pokémon?

Pokécology an Illustrated Guide to Pokémon Ecology é de autoria do japonês Yoshinari Yonehara (sob nome da TPC) e ilustrado pela Chihiro Kinoshita, ambos PhDs pela Universidade de Tóquio, com lançamento original em meados de 2025 — mas o lançamento aqui no ocidente veio apenas recentemente, em 2026. Vale também acompanhar o trabalho de Kinoshita pelo seu perfil no Instagram.

O livro foi publicado aqui no ocidente sob o selo Pikachu Press — de propriedade da TPCi e da editora norteamericana Simon & Schuster, que também mantém a linha editorial disponível online — que publica vários impressos sobre o mundo de Pokémon desde 2011.

Selo da Pikachu Press: parcerias são o modelo da dupla TPC/TPCi para garantir merchandising no mercado sem precisar se especializar em várias áreas e abrir estúdios e filiais.

Nos últimos anos, a TPC tem investido em parcerias principalmente nas áreas de ciências biológicas para produzir interseções que dialogam com a Ciência — que sempre foi parte importante da narrativa dos jogos de Pokémon.

Por outro lado, é claro que estas parcerias têm por objetivo não apenas investir na educação e trazer as crianças para dentro de escolas, museus e demais locais onde se produz conhecimento, mas também vender merchandising — o grande fruto do aumento de receita da franquia. No final das contas, a Ciência japonesa tem ajudado a gerar produtos inusitados, como model kits para Pokémon fósseis ligados a um museu itinerante e, claro, também o Pokécology.

Também não duvido que, como ocorre no Brasil, deve haver algum programa ou legislação do governo do japonês para subsidiar ou isentar de impostos iniciativas como esta, em que empresas que investem na educação ou cultura ganham não apenas vantagens fiscais, mas também ganham com publicidade positiva e — como se trata de uma marca ainda muito relacionada com o público infantil — aceitação dos pais, do público acadêmico e também de funcionários públicos.

De certa forma, é uma situação win-win — em que obviamente quem mais tem a ganhar é a TPC — mas não quer dizer que Pokécology seja apenas isso e não haja nenhum conteúdo a se comentar.


Um guia ilustrado para a ecologia dos Pokémon 

Em termos mais fáceis, este livro emprega um truque simples: o que ele faz é oferecer ilustrações para um grande número das descrições presentes na Pokédex dos jogos eletrônicos de Pokémon — é essa a maior parte de seu conteúdo.

Conhecida por vários exageros, muitos verbetes contidos na Pokédex e obtidos através da captura dos Pokémon enquanto de posse de um exemplar do artefato contém passagens decididamente perigosas, horrendas ou no mínimo inverossímeis — às quais cabe comentar que Pokécology ignora completamente, buscando oferecer representações para os verbetes que melhor dialogam sobre o entendimento do próprio livro para ecologia: nas palavras dos próprios autores, "when we talk about how a Pokémon lives within nature, and the relationships between it and its environment, we call that its 'ecology'." Conforme a página 5, ou:


Ao falarmos sobre como um Pokémon vive na natureza, e das interações entre ele e seu habitat, nós chamamos isto de 'ecologia'. (tradução livre e minha)


O trabalho dos professors não é necessariamente simples e fácil — mas se trata de um gigantesco paralelo com a ciência e cientistas do nosso mundo.

É claro que é interessante ver como se dão certas interações descritas na Pokédex na forma de ilustrações, mas o livro não se resume bem a isso: existe, aqui e ali, pequenas peças de informações sobre espécies de Pokémon que são novidade. Leia-se, o livro apresenta lore nova. Não há muita coisa relevante — e a maioria não passa de detalhes sobre, bem, a ecologia da espécie em questão — e isso é algo que tem pouco valor para quem não é um verdadeiro "Poké-fanático", entretanto.

Por outro lado, muitas ilustrações aproveitam para trazer vários verbetes de Pokémon diferentes de uma só vez — e assim há espaço para mostrar também como estes Pokémon, que obviamente compartilham o mesmo habitat, interagem entre si.

Conforme seu verbete na Pokédex, vários Pokémon aproveitam a sombra da árvore nas costas dos pacíficos Torterra.

Há também belíssimas ilustrações que cobrem páginas inteiras — às vezes ambas as páginas adjcacentes ao abrir o livro — e, junto ao projeto gráfico e infografos, que ajudam a compor um livro bonito de se abrir e folhear.

Mas que não contam uma estória por si só, exigindo um pouco de imaginação do leitor — e conhecimento prévio sobre a figura dos professors e da narrativa dos jogos.


Ciência e ecologia para os Pokémon 

Tenho para mim que os jogos de Pokémon são separados em três núcleos narrativos: em um primeiro plano, e principal motivação para a jornada pelo mundo, temos o desafio da Pokémon League e o conceito de se provar enquanto um competente Pokémon trainer — mas acontece que a magia do restante do mundo acontece entre um Pokémon gym e outro.

O jogador vai conhecer lugares e pessoas, resolver problemas, encarar o crime e contradições desta sociedade, enquanto também encontra, conhece e captura diferentes espécies de monstrinhos não apenas com o objetivo de montar um time competente, mas para ajudar a coletar dados para cientistas — é aqui que entra a Pokédex, lá no início dos jogos.

Cabe um comentário trivial: em japonês, o nome original da Pokédex é ポケモン図鑑, Pokémon zukan ou simplesmente "enciclopédia ilustrada de Pokémon" — mais um paralelo com Pokécology, mas não o último.

Através de essencialmente um gadget, o jogador junta dados sobre os monstrinhos e — sabe Deus como — envia automaticamente para os professors. Em outras palavras, funciona como uma desculpa para incentivar a captura, evolução e combate com diferentes monstrinhos.

Informações como habitat, peso e altura médios, o formato de suas patas e que tais talvez tenham utilidade para pesquisadores de áreas biológicas — mas mesmo para os mais leigos há muitas informações relevantes em termos de referências a conhecimento do nosso próprio mundo: há menções à teoria da evolução e cladística, assim como interações como mutualismo, competição, parasitismo e até mesmo a estudos específicos, como reconheci algo de um estudo conhecido sobre primatas e outro sobre dinossauros.

Dentre os Pyroar, as fêmeas caçam e os machos protegem o grupo: onde foi que já vi isso antes?

Pessoalmente não sou da área, mas há um esforço para mudar a idéia de que os Pokémon são mais do que galos de rinha sobrenaturais e que eles fazem parte da natureza em um mundo em que interagem entre si longe da humanidade e também dos olhos dos jogadores: há mais coisas que acontecem enquanto os trainers enfrentam batalhas Pokémon do que conseguem acompanhar, coisas que se relacionam e geram desdobramentos e adaptações e que afinal compõe um mundo interconectado de maneira natural e espontânea.

Isso serve ao intuito de tornar este mundo mais vivo e verossímil, mas levanta várias questões que a própria Nintendo evitou — ou simplesmente mudou — ao longo dos anos, como morte, fome e sofrimento dos monstrinhos.

Um grupo de Victreebell atraindo outros Pokémon com seu néctar doce para poder se alimentar deles: o mundo natural de Pokémon aos poucos vai mostrando a cara.

Mas também implica em dizer que este mundo é maior do que os jogos eletrônicos geralmente mostram e que os Pokémon podem estar mais relacionados com o mundo que conhecemos nos jogos do que imaginamos — e claro que quem vai descobrir estas maravilhas (e aprender com elas) serão os professors e seus assistentes.


Mas e o RPG?

O Cotidiano Nervoso já soma aí quase seis meses desde seu lançamento, falando exclusivamente de RPG — mas acontece que não é minha única paixão. Menos ainda a única coisa que queria dizer e acho que não faz mal falar de outras de vez em quando: para quem se interessar, espere ver mais material de outras áreas eventualmente.

Mas vou fazer um esforço.

A bem da verdade, há bastante material ao longo de Pokécology que pode servir como ganchos para aventuras de Pokémon — e para alguns pode servir como inspiração para suas próprias criações de outras ordens, como fanfics ou mesmo para a estória de hackroms — também tendo como exemplo situações certamente únicas para o conteúdo das Pokédex: como um Scyther que por algum motivo está cortando as árvores de toda uma floresta (p.94) ou o que acontece com os Garbodors, quando Muks e Grimers de Alola tomam a fonte de alimentação deles (p.36) talvez tentando invadir a casa das pessoas, em busca de lixo para comerem?

Ganchos estão por toda a parte: por que Grimers de Alola e Wimpods estão evitando a usina de descartes da cidade? E se vários Pokémon do tipo Grama subitamente invadissem campos de placas solares?

O livro funciona bem como prop para campanhas de Pokémon, independentemente do sistema empregado, e ajuda a despertar o interesse e jogar a favor da imersão de jogadores de todas as idades.

Pokécology também é referência excelente para RPGs menos violentos, nos quais combates geralmente não são finalidade: em especial, fiquei bastante impressionado como o livro faz sentido dentro da proposta de Ryuutama, mas outros jogos poderiam ter aproveitamento similar, como os óbvios Fabula Ultima e tudo quanto é adaptação e jogo amador já pensado para Pokémon.

Não é difícil imaginar campanhas em que a mera coleta de dados sobre Pokémon seja o objetivo — completa com o aumento de riscos envolvendo Pokémon maiores e mais perigosos, assim como momentos especiais e desafios finais com os Pokémon lendários — talvez na pele de assistentes ou dos próprios professors, assim como tendo na forma de rivais outros professors ou com antagonistas criminosos dos vários Teams e demais pessoas de poucos escrúpulos, tentando explorar os monstrinhos ou expulsando-os de seu habitat natural.


Conclusão & comentários finais

Deixei para o final um resquício das resenhas sobre RPG do blog — falar sobre material físico e preços — por motivo simples: o restante do artigo já estava de bom tamanho.

O material conta com capa mole, brochura com páginas coladas, mas miolo inteiramente composto de papel premium de alta gramatura e páginas inteiramente coloridas — um luxo a se pagar para manter a qualidade das ilustrações, que são o grande atrativo: como disse antes, Pokécology é um livro que busca dar representação gráfica para os verbetes da fictícia PokéDex.

O preço de capa é US$15 — que pode soar caro no Brasil, mas não nos EUA: é o mesmo preço médio cobrado em um volume de mangá por lá, sendo que mangás têm páginas em preto-e-branco e maior transparência nas páginas. Na prática, o Pokécology compete bem com outras opções do mercado que disputam pelo mesmo público.

Da esq. para a dir. um mangá da Panini, um mangá de dimensões típicas norteamericanas, a edição física de Pokécology e o Livro do Jogador de D&D5e.

Não custa lembrar, entretanto, que quase um quarto do livro é apenas uma lista gigante de Pokémon que aparecem no restante do livro, como uma espécie de índice, e — como se trata principalmente um livro de ilustrações — há relativamente pouco texto e a tendência é que uma leitura acabe rapidamente.

Finalmente, talvez o tamanho do artigo tenha não exatamente assustado, mas impressionado um eventual leitor. Não nego que o mais importante aqui foi repetido ainda há pouco: na prática, Pokécology serve para dar imagem e ilustrar descrições da Pokédex com o esmero que merecem — depois de 30 anos estimulando a imaginação dos jogadores que tiraram um tempinho para ler e visualizar as mais variadas situações e detalhes descritos.

Tenho para mim que é um livro que mereça espaço na coleção de qualquer fã da franquia e que se trata de um dos poucos itens de merchandising que merece destaque e recomendação para seu público: acontece que o slogan tradicional de Pokémon — o hoje sumido Gotta Catch'em All — também se estende a esta ordem de produto.

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