Uma resenha para Ferozes e Furiosos
Indo direto ao assunto, não vou mentir ao dizer o seguinte: eu nem fazia idéia que esse livro estava sendo escrito.
Não há muita história para este suplemento, como não lembro sequer de menção nem nas redes sociais, nem na Dragão Brasil antes do seu lançamento.
Para falar a verdade, enquanto escrevo essa resenha a Jambô já publicou outro suplemento para 3DeT Victory. Masmorras e Marmitas já está sendo vendido e fora alguns artigos na Dragão Brasil não havia nem comentário sobre o livro. Não sou fã de teasers de anúncios apenas para dizer que estão trabalhando em algo, mas parece que a Jambô tem lançado moda nova com esta edição de 3D&T: rolar Furtividade para fazer lançamentos sem ninguém saber.
Dito isso, na prática essa introdução tem o objetivo de dizer o seguinte: essa resenha será mais curta, até porque não acredito haver tanto assim a se dizer sobre esse livro.
Do que é feito um livro
O livro segue a mesma qualidade gráfica de seu antecessor, a edição impressa do Manual do Arcanauta, com as mesmas dimensões, capa mole e páginas de igual gramatura. A diferença é que, desta vez, temos o mesmo desenho de dados em verniz na capa e o miolo (com mais páginas) está em cores — lembrando que o projeto gráfico da edição Victory, assim como as ilustrações internas, são pensadas para impressões em cores.
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| Da esq. para a dir. um mangá da Panini, o Ferozes e Furiosos, o Manual do Arcanauta, a edição econômica de 3DeT Victory e o Livro do Jogador de D&D5e. |
Algo que não posso ignorar é que o desenho gráfico interno do livro está cada vez melhor: muitas caixas laterais usam ilustrações maiores como fundo, afim de ajudar a separar textos e a idéia oferece agora um ar dinâmico que estava fazendo falta neste 3DeT tão preto-e-branco. Há muitas ilustrações excelentes e quase todas são inéditas.
Como ocorre para todos os produtos atuais da Jambo, cabe comentar a falta de revisão: há muitos erros (principalmente envolvendo placeholders, palavras e termos usados para serem trocados antes do livro vir a público) que indicam a falta de tempo com a equipe antes de partir para a gráfica e chegar logo ao varejo.
Mas aqui temos um porém um pouco maior: o texto como um todo perdeu em qualidade e sofre com repetitividades, informações redundantes e o que me parece uma tentativa recorrente de tornar texto sobre regras algo mais palatável — mas acaba parecendo papagaiada.
Coisas como "força, agilidade, inteligência, resistência e cont de de poderes" ou "mede presença, cont e a capacidade de errar" nos fazem perguntar o que é esse tal de cont; "pode gastar uma ação para permitir que um aliado um teste novamente" — para um aliado o quê afinal de contas, meu Deus?
Se parece pouca coisa, cabe lembrar que isso aparece de novo e de novo e que descrições como "cada fruto cura todos os PVs de um personagem e faz crescer folhas no cabelo. Quem tenta arrancar sofre 1D de dano" implica em questionar: quem é que sofre esse dano? O cara que está perdendo as folhas no cabelo ou o outro, que está arrancando elas? A resposta não é óbvia, senão por outro motivo, porque é uma punição por usar este recurso que aparece no jogo — e não condiz muito bem com o texto a que pertence — mas não faz sentido eu arrancar folhas que cresceram onde não deviam e ser punido por isso com perda de PVs, sendo que não cresceram em mim.
Seriam os antagonistas ferozes e furiosos?
O conteúdo de Ferozes e Furiosos é bem óbvio e sem enrolações: são pouco mais de 180 fichas para antagonistas e oponentes prontas para uso, conforme a parte traseira de sua capa.
Embora o livro tenha mais material — incluindo novos Ajudantes para a vantagem homônima, regras para pesca dignas de um minigame de MMORPG e novas técnicas — a grande novidade é que este é o primeiro suplemento da linha Victory que trata do novo cenário: não são monstros típicos e tradicionais de RPG e portanto não espere simplesmente encontrar criaturas como beholders, panteras deslocadoras, bugbears e hobgoblins, o Tarrasque ou vinte fichas para dragões cromáticos e gigantes. Há, por outro lado, bastante kobolds — que fazem as vezes de criaturas estúpidas e pensadas para preencherem a função cômica de outros jogos, como o goblin de Pathfinder: em outras palavras, é necessário situar estas criaturas no cenário de 3DeT Victory.
Para dar exemplo, há quatro fichas para "lutadores de rua", trazendo tropos comuns dos filmes, animes e jogos de luta — mas que também implicam na existência de um torneio de artes marciais, obviamente da Ilha do Martelo. Isso quer dizer que há bastante ganchos espalhados pelo livro.
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| Páginas como essa passam bem a mensagem do livro: o jogo tenta ser divertido na leitura. |
Portanto, o conteúdo deste livro é certeiro e toda mesa, todo mestre e todo grupo encontra aqui algo de uso: fichas prontas, com ganchos, histórico, motivação e tesouros para chamar a atenção dos jogadores.
O problema é que, ao invés de usar o que o livro básico já trazia em termos de opções de jogo para montar ficha, Ferozes e Furiosos joga uma parte fora em nome de uma suposta simplificação e as fichas passam a ter um, dois, três poderes relativamente únicos e que variam de criatura para criatura.
O mestre não precisa mais se preocupar com PAs e PMs, o que é ótimo para combates envolvendo muitos oponentes mais fracos, mas muitos dos novos poderes trazem detalhes e nuances que aparecem misturadas com regras — e elementos que já haviam sido assumidos como erros e defeitos em edições anteriores do 3D&T voltam a aparecer em antagonistas exclusivamente: há pouquíssimas vantagens, para não se lidar com opções como Anular e Imitar, mas os poderes funcionam de maneira muito parecida e — como cada oponente de Ferozes e Furiosos tem em média de dois a três poderes — na prática isso quer dizer que estes antagonistas recebem vantagens sem pagar pontos por isso e que o único benefício que havia nisso (desonerar o mestre) se torna um novo problema, como agora o mestre (e apenas ele) precisa conhecer poderes de todas as fichas que ele pretende usar.
Muitos poderes são repetitivos — quando não são cópias funcionais — e, bem, na prática Ataque Múltiplo está de volta. Ainda há muitos tesouros que sugerem que os poderes são técnicas, tornando a coisa toda ainda mais confusa do que já parecia.
O livro começa com uma discussão que é a cara do Bruno Schlatter, sem tirar nem pôr: abre propondo uma espécie de medida objetiva usando estatísticas do próprio jogo para pensar e comparar encontros e desafios. Se foi ou não escrito pelo Bruno somente posso especular, mas suponho que a galera que tenha sentido falta disso no Manual básico saia mais satisfeito aqui — é mais uma situação em que a Jambô vende um produto com problemas e depois também vende a solução.
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| Como esse livro fala de máquinas de venda automática e lan houses, mas não fala de fliperama violento de boteco em lugar nenhum? |
Somado aos erros corriqueiros e placeholders, muita coisa no texto soa repetitiva — em especial a tendência a tentar convencer que tudo é ou grandioso, ou cômico, ou excessivamente tolo — e contribuem para deixar a leitura não apenas fadigante, senão uma espécie de postagem de rede social contínua: é um suplemento que deve ficar velho rapidamente, enquanto a gente arrasta para cima o PDF ou vira a página do livro físico.
Mas claro que nada disso seria tão problemático se não fosse a precificação questionável da Jambô: pelo que estão cobrando, a gente tem que esperar mais qualidade mesmo.
Feroz e furioso mesmo só o preço
Com um preço cheio de R$129,90 por um livro de monstros e ameaças, não custa lembrar o que todos já pensamos: não compre o livro sem um considerável desconto. Francamente, é um livro que não vale R$100 — e os R$60 cobrados na versão digital definitivamente não compensam.
Acontece que Ferozes e Furiosos tem um comparativo curioso de linha similar: o Manual dos Monstros para 3D&T Alpha tinha mais monstros, mais fichas, mais ganchos, mais tesouros interessantes, mais acessibilidade, dicas sobre como conduzir combates com os monstros e sobretudo mais criatividade — o Ferozes e Furiosos ganha apenas em ilustrações e projeto gráfico.
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| Conteúdo de Ferozes e Furiosos: a reduflação chegou pro 3DeT também! |
Se é que podemos chamar algo neste livro de feroz ou furioso é o modelo atual de precificação da editora Jambô, que joga lá em cima o preço de um produto cheio de erros, que traz de volta problemas antigos e ainda por cima malacabado — mas pelo menos é bonito. E é por isso que estamos pagando.
Conclusão & comentários finais
É claro que, se tratando de um suplemento, este é um livro voltado ao jogador de 3DeT Victory, mas aqui temos algo que provavelmente servirá de utilidade a praticamente toda mesa do jogo.
Frente às questões deste livro, entretanto, não tenho dúvidas quando digo o seguinte: o Manual dos Monstros para o 3D&T Alpha era inegavelmente melhor em conteúdo, acessibilidade e preço.
Particularmente, não vou negar que estou cansando de escrever resenhas para suplementos de poucos méritos e suponho que uma resenha para o Marmitas e Masmorras pode demorar muito para aparecer — isso se o conteúdo agradar.
Fico com a impressão de que há uma reação nos (poucos) artigos da Dragão Brasil para trazer de volta a idéia de que 3D&T ainda é um RPG para adaptações — principalmente por meio de adaptações de obras atuais e de interesse do público, como FATE/strange fake e Witch Hat Atelier, que ficaram ótimas — mas também deixam a sensação de que suplementos e material caro e meia boca meio que são o preço que precisamos pagar por conteúdo de qualidade (pelo qual também precisamos desembolsar grana) e mesmo uma "licença aberta" não faz muito para manter ativa uma comunidade com pouco incentivo de sua editora... e material cada vez mais caro.
Ainda não foi dessa vez para o 3DeT.






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