Superkits para 3D&T Alpha: o Cavaleiro de Ouro de The Lost Canvas
Só quem coleciona ou compra HQs sabe a maldição das reimpressões: ao contrário dos livros — e quadrinhos — mais populares, certos volumes desaparecem rapidamente do varejo e pode levar anos para que estas obras receberem reimpressão.
Recentemente, a editora JBC voltou a reimprimir o mangá The Lost Canvas da franquia Os Cavaleiros do Zodíaco — um dos clássicos absolutos e intocáveis do Brasil contemporâneo — e eu aproveitei a oportunidade para comprar os dois volumes que me faltavam e afinal estou relendo a obra.
Acho que poucos que não são da época lembram do impacto que CdZ teve na formação do público e imaginário de quem foi criança e adolescente em meados dos anos 90. Não existia nada tão violento, dramático, com poderzinho e lutinha iguais: sem me deixar cegar pelas lentes rosas da nostalgia, Cavaleiros lembrava e muito um dramalhão mexicano digno de uma telenovela, mas com lutas animadas e lógica e mitologia internas — como resultado, as crianças simplesmente adoravam.
O auge de Cavaleiros, embora com um início que surpreendeu a emissora Manchete, chegou em seu arco "A batalha das Doze Casas", que começa com os Cavaleiros de Bronze de sempre encarando Mu de Áries na Primeira Casa, do signo de Áries, no episódio 42. Os Cavaleiros de Ouro já haviam aparecido antes na estória, mas a partir do episódio 42 teremos lutas sequenciais contra praticamente todos os Cavaleiros de Ouro por um motivo ou por outro.
Desde o princípio, os Cavaleiros mais fortes da deusa Atena se mostraram lutadores formidáveis, com um domínio ímpar do cosmo e das artes marciais — e todas as crianças se identificavam mais (ou menos) com os Cavaleiros de seu signo.
A popularidade era certa e aos poucos as Armaduras de Ouro e o status de Cavaleiro de Ouro não somente significavam uma progressão natural para Seiya e seus amigos, como também o ápice do poder de um Cavaleiro de Atena: aos poucos, mesmo na estória original do autor Masami Kurumada, os Cavaleiros de Ouro ganham mais destaque e, na chamada "saga de Hades", eles praticamente se tornam coadjuvantes (e antagonistas) ao lado dos Cavaleiros de Bronze frente ao Imperador do Submundo, Hades — o que ocorreria ainda no final dos anos 80, nos mangás.
Parecia natural que, em algum momento, alguma série exploraria o potencial destes guerreiros inigualáveis na lealdade à deusa Atena quando em meados de 2006 a mangaká Shiori Teshirogi receberia carta branca para publicar seu mangá explorando os feitos de Cavaleiros de Ouro de uma geração antiga, ainda com o protagonismo do eterno Cavaleiro de Pégaso, mas dando muito mais espaço aos maiores guerreiros de Athena.
The Lost Canvas na prática conta a estória das mais recentes encarnações de Atena, Hades e Pégaso no século XVIII — mas quem de fato move a maior parte da narrativa são os Cavaleiros de Ouro, inspirados principalmente na guerra entre deuses da saga de Hades: muitos eventos têm reflexo aqui nesta estória, desta vez com o sacrifício dos dourados demonstrando o quão terrível é a guerra entre os deuses.
Embora alguns fãs mais antigos tenham torcido o nariz, muitas Armaduras de Ouro receberam portadores mais... "fáceis" de se identificar. Por exemplo, o solitário Albáfica de Peixes era um Cavaleiro mais honrado e altruísta que Afrodite de Peixes da série original — também porquê CdZ tinha o hábito questionável de fazer de vilões os personagens bishonen.
Outro traço relevante da obra é a caracterização de personagens atuais: por exemplo, dá-se uma explicação para a longevidade de Dohko de Libra, Cavaleiro de Ouro há mais de duzentos anos, e sua amizade com Shion de Áries, que na época da obra original fora corrompido por Hades e se tornara um Espectro em seu nome. O fato de todos terem mais histórico, desenvolvimento, importância e participação — dado o número de volumes em The Lost Canvas — dialogou muito mais facilmente com o público: no final década de 2000, o mangá ganhou animação em forma de OVA e caiu no gosto do público.
Por algum motivo, a animação foi deixada de lado após duas temporadas em OVA — talvez em função de vendas, que podem ter ficado abaixo das expectativas — mas o mangá chegou a receber um spin-off, que também foi terminado.
E, enquanto eu relia The Lost Canvas, fiquei pensando comigo mesmo: podia pensar num superkit para os Cavaleiros de Ouro.
Afinal de contas, foi Os Cavaleiros do Zodíaco quem escancarou as portas da cultura pop brasileira para a animação nipônica — e se hoje obras como Jujutsu Kaisen e Frieren estão na ponta da língua da galera mais jovens (e um pessoal não tão novo ainda fala de Death Note e Naruto) é porque Cavaleiros fez o serviço de povoar o imaginário popular do brasileiro com animes. E já contávamos com a obra entre as referências de RPG no Brasil daquela época.
CdZ e 3D&T
Até onde sei, nunca houve um RPG licenciado para o mundo de Saint Seiya. Acho que os Cavaleiros de Atena não despertaram o interesse dos japoneses a tal ponto ou de repente não havia tanto interesse em merchandising para áreas tão diferentes no Japão quando da época do sucesso de Os Cavaleiros de Zodíaco, no seu auge da década de 80 — mas aqui no Brasil desde o princípio que CdZ teve espaço em 3D&T.
Mesmo no primeiro Defensores de Tóquio, lá em 95, já havia a figura do "Cavaleiro de uma constelação qualquer" — entre os personagens de tokusatsu que faziam sucesso na época já havia o reconhecimento do sucesso dos animes.
Capa da primeira edição do Defensores de Tóquio: não era Ano do Rato no zodíaco chinês, mas o primeiro jogo de 3D&T já tinha um Cavaleiro fã de queijo logo na capa. |
Com o esgotamento da primeira edição, tivemos no ano seguinte uma espécie de revisão e o Advanced Defensores de Tóquio chegando aos mercados no ano seguinte de 1996. Mais uma vez Cavaleiros era referência na figura dos (jogáveis) Cavaleiro do Cruzeiro do Sul e o vilão Cavaleiro do Contra.
Na terceira edição, o 3D&T propriamente dito, temos referências pontuais aqui e ali, mas a franquia ganha uma adaptação de peso apenas durante os anos 2003 e 2004 com três edições da Dragão Brasil — os números #101, #102 e #105 — trazendo toda a saga que aparecera primeiro na Manchete, mas então era reprisada em outras emissoras.
Para o 3D&T Alpha, houve bastante material amador aqui e ali — e juro que havia uma adaptação pontual com um kit para Cavaleiros em um dos antigos blogs da Jambô, conteúdo atualmente perdido — mas foi a revista Tokyo Defender que trouxe em 2021 um novo kit, fichas para os personagens principais da série (incluindo todos os Cavaleiros de Ouro) e finalmente uma aventura introdutória original.
É visível que 3D&T nunca esqueceu dos Cavaleiros de Atena — entretanto, essa é uma história que seguiu com a edição Victory (e recebeu adaptação pelo menos no blog atual da editora Jambô... enquanto este existir) e pessoalmente acredito que havia mais a se aproveitar no 3D&T Alpha.
Não vejo muita razão ou motivo para argumentar que apenas o Manual 3D&T Alpha é necessário para jogar Os Cavaleiros do Zodíaco — mesmo porque há mais material disponível servindo a favor da idéia do que opiniões contrários — mas isso não quer dizer que não possamos aproveitar material suplementar posterior.
Pessoalmente, creio que há um livro específico da linha que tem bastante a contribuir: o Tormenta Alpha. Foi este o livro quem efetivamente apresentou mecânicas para progredir em escalas, assim como a novidade dos superkits — kits que na prática representavam a subida de escala permanente na progressão dos personagens. Infelizmente, apareceram pouquíssimos superkits fora do suplemento (mais material perdido ou prestes a se perder nas mãos da editora Jambô) e ficaram apenas os vinte exemplares do Tormenta Alpha, boa parte deles de alguma forma relacionada ao cenário de Tormenta e difíceis de se explorar em outros.
Curiosamente, a idéia parece cair como uma luva em uma adaptação de CdZ para 3D&T Alpha — até o Manual básico sugere que a diferença entre Cavaleiros é questão de escalas — e portanto este é o conceito que vamos explorar neste artigo.
Em termos de material, apenas o Manual 3D&T Alpha e o Tormenta Alpha serão necessários, também para podermos começar falando sobre o conceito de "sentidos" em Os Cavaleiros do Zodíaco e como eles se relacionam com as escalas do 3D&T Alpha.
O cosmo e os sentidos do budismo
No mundo de Cavaleiros, a maioria das pessoas tem acessos aos cinco sentidos mais comumente reconhecidos que nos permitem interpretar estímulos captados do mundo ao nosso redor. Acontece que, em CdZ há mais alguns.
Como ocorre a outras séries de demografia similar, é claro que para alcançar os demais sentidos — e desenvolvê-los — são necessários anos de treinamento rigoroso e muita disciplina e dedicação. Não é para qualquer um — o que na prática significa que somente personagens relevantes para a estória alcançam estes níveis: em 3D&T, obviamente apenas personagens com 5 pontos ou mais terão acesso a eles e raramente pessoas comuns alcançam sequer o sexto sentido, que tem relação mais ou menos direta com o cosmo.
No mundo de CdZ, o cosmo é uma energia presente em toda a matéria e na cosmologia do cenário teria sido liberada em toda a existência quando o próprio Caos (a entidade primordial da mitologia grega) causou o Big Bang. Em Cavaleiros, o cosmo é a base para explicar todos os poderes especiais e técnicas únicas que existem no cenário — não é difícil chegar à conclusão de que este "poderzinho" é a cola que segura toda a lógica interna da série, conforme outros battle shonen.
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| Marin de Águia explica o cosmo para Seiya durante seu treinamento. |
Todo ser vivo é dotado da capacidade para explorar seu próprio cosmo e a expansão e contenção do cosmo individual são técnicas comuns e introdutórias, permitindo aos Cavaleiros de Atena respectivamente interagirem com o cosmo dos objetos ao seu redor (ao alcance do cosmo expandido do personagem) ou esconderem sua presença de inimigos e antagonistas.
O infame sexto sentido se refere à capacidade que os Cavaleiros têm de reconhecer e identificar o cosmo em toda matéria e é uma capacidade ainda em desenvolvimento para Cavaleiros de Bronze, mas que aumenta à medida que treinam e combatem.
Em regras, o sexto sentido nada mais é que a vantagem Sentido Especial — que, conforme aparece assim discutida no Manual do Defensor, aqui é tratada como uma perícia própria: o que não é uma idéia tão distante assim dos próprios conceitos de Cavaleiros, como o desenvolvimento mesmo de sentidos mais básicos significa a expansão do cosmo individual e "detectar cosmo" pode muito bem ser um novo Sentido Especial sem nenhuma perda. Em oposição, sem a vantagem Sentidos Especiais, um personagem teria apenas um entendimento intuitivo do cosmo, sem entender exatamente o que ele é e como pode empregá-lo exatamente.
Através de Sentidos Especiais — e do cosmo — um personagem pode intuir de maneira geral fontes de cosmo em destaque (leia-se, mais poderosas) o estado emocional das mesmas e até mesmo consegue ter uma idéia do poderio delas, bastando um sucesso num teste de perícia.
Mais especificamente, quanto mais específicas — ou quanto mais exigências houverem — maior a dificuldade do teste: perceber a presença de um cosmo poderoso, sentir agressividade ou saber se há alguém em escala superior pede apenas um teste simples; mas saber exatamente em que direção se encontra e distância aproximada, saber exatamente qual a intenção da fonte ou mesmo quantos pontos têm acima do personagem sem dúvida exige um teste difícil.
Gastos espetaculares de PMs — por exemplo, custeando magias particularmente poderosas ou pagando pelo menos 10PMs em vantagens — provavelmente vão diminuir a dificuldade dos testes, assim como personagens sobre estresse emocional causado, digamos, por Fúria, Insano ou Protegido Indefeso.
Personagens com a vantagem Sentidos Especiais completa podem lançar a magia Poder Telepático (Manual 3D&T Alpha, p.109) assim como qualquer personagem com pelo menos uma das perícias Arte ou Manipulação pode lançar O Canto da Sereia.
Um fato pouco conhecido aqui no Brasil sobre os vários sentidos de CdZ é que a idéia é uma mistura de algumas fontes que, para falar a verdade, surpreendem: uma de suas referências é o budismo e o conceito de "oito consciências" presente em alguns dos braços da religião e revela o pensamento de partições mais mentalistas entre os budistas.
Segundo as "oito consciências" budistas, as cinco primeiras seriam obviamente os sentidos com os quais já estamos acostumados e o sexto seria a mente propriamente dita, na forma de uma consciência surgida a partir da deliberação sobre as percepções dos outros cinco — o "sexto sentido" seria uma forma de entendimento e sobre a atuação de todos os outros sentidos juntos. De certa forma, quando os demais sentidos se alinham, seria possível alcançar uma espécie de estímulo perceptivo totalizante — de maneira similar ao cosmo que permeia toda a matéria em Os Cavaleiros do Zodíaco.
Por sua vez, a palavra cosmo surge do grego antigo — e significa "ordem", "ordenação", "arranjo" ou "sequência" — e foi usada pelo filósofo grego Pitágoras (aquele do teorema) para argumentar que o mundo, o universo e toda a matéria funcionam como um sistema, cada peça realizando sua função para a obtenção de um resultado específico em que a falta de uma peça impede a operação de ser concluída — como um relógio, em que o conjunto das peças em uníssono permite ao usuário saber as horas.
Alguns séquitos budistas, por sua vez, acreditam também numa sétima e oitava "consciências" — obviamente análogas ao sétimo e oitavo sentidos em CdZ.
O sétimo sentido
Se o sexto sentido — ou yishiki, "intuição", em japonês — tem o caráter de ser propriamente um sentido que capta e interpreta de alguma forma estímulos da ordem do cosmo, o sétimo é mais ... espetacular por assim dizer.
A idéia de oito sentidos em CdZ lembra bastante o tropo dos ESPers que fazia bastante sucesso na cultura pop japonesa — pessoas com percepção extrassensorial e que eventualmente também desenvolviam poderes psíquicos, como mover objetos com a mente. É mais ou menos o restante que o sétimo sentido fará.
De certa forma, o sétimo sentido envolve a superação das limitações materiais, mundanas ou terrestres: através do domínio do próprio cosmo, um Cavaleiro pode realizar — mesmo que por pequenos períodos — feitos sobrenaturais dignos dos deuses de CdZ. Não à toa, shichishiki — o nome em japonês da "sétima consciência" — também é descrito como "milagres" ou "miraculosidade", mais literalmente, a faculdade de realizar milagres.
Dentro da lógica da franquia, a idéia de um milagre envolve feitos decididamente sobrenaturais que superam a capacidade humana: ao invés de tecnologia ou feitos aumentados das artes marciais, o sétimo sentido possibilita produzir efeitos sobrenaturais ou que contrariam as leis da Física, como se mover (e atacar) na velocidade da luz ou produzir a temperatura do zero absoluto retirando todo o calor de algum objeto — no 3D&T, muitos dos poderes e técnicas únicas do sétimo sentido encontram analógos nas magias do jogo.
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Shiryu de Dragão desperta o sétimo sentido na luta contra o Cavaleiro de Câncer. |
Em regras, o sétimo sentido é alcançado muito simplesmente subindo de escala — simples assim.
Várias das capacidades especiais de Cavaleiros de Ouro são representadas pelas Características Sobre-Heróicas, efeitos adicionais para valores de características acima de 5 apresentados no Tormenta Alpha, assim como as regras para Onda de Choque — descritas entre as páginas 55 e 56 do suplemento.
Não é possível despertar o sétimo sentido, entretanto, sem antes possuir Sentidos Especiais pagando os 2 pontos pela vantagem completa, mas a partir do momento em que conquista o sétimo sentido o personagem pode adquirir qualquer vantagem do jogo — inclusive aquelas proibidas pelo mestre para a campanha, como vantagens mágicas, Implementos ou os superpoderes de Mega City — e todos os PEs gastos em utilidades para além de progressão do personagem e tesouros compram um número de benefícios igual ao "número" da escala do personagem, podendo comprar mais vezes o mesmo benefício a critério do mestre.
Por exemplo, um personagem Kiodai que gaste 1PE pode comprar benefícios como se tivesse gasto 3PEs: pode tornar possível o impossível, comprar um sucesso automático e ainda recuperar PVs, por exemplo; pode comprar três críticos automáticos de uma vez só, multiplicando F, A ou PdF por quatro em uma FA ou FD; ou simplesmente adquire por uma cena uma vantagem de até 3 pontos.
Fora os requisitos e os benefícios do sétimo sentido, não há um método consistente e absoluto para alcançá-lo — e esta imprecisão é muito bem aproveitada no 3D&T Alpha: segundo o Tormenta Alpha, é preciso realizar missões especiais para subir de escala.
E, claro, o domínio do cosmo e o alcance do sétimo sentido também são requisitos para se tornar um Cavaleiro de Ouro — em outras palavras, é preciso subir de escala para se tornar um deles.
Se tornando um Cavaleiro de Ouro
O Manual 3D&T Alpha (pgs. 129 e 130) usa os Cavaleiros de Ouro como uma das referências para a escala Kiodai — e particularmente considero a proposta acertada. CdZ é uma obra cheia de hipérboles, mas acho que elas funcionam bem dentro de um jogo como 3D&T: a técnica Explosão Galática, típica dos Cavaleiros de Gêmeos, costuma ser descrita como poderosa o suficiente para destruir uma estrela e — a meu ver — no 3D&T isso pode muito bem equivaler a um Ataque Especial (Dano Gigante) realizado por um personagem Kiodai.
É claro que isso também quer dizer, mecanicamente, que conquistar o sétimo sentido é matéria para a escala Kiodai — o que faz mais sentido quando conferimos que as Características Sobre-Humanas que representam certos poderes dos dourados mais facilmente e se encontram na faixa dos 50 pontos para cima, justamente a pontuação considerada mínima para a escala no Tormenta Alpha.
Isso também encaixa no conceito interno de "Guerra dos Mil Dias", nome dado a conflitos letais entre os Cavaleiros de Ouro de poder semelhante: acontece que, tradicionalmente no 3D&T, combates entre personagens de pontuações tendem a demorar muito mesmo.
Como dito antes, não há um método consistente e acima dos outros para se tornar um Cavaleiro de Ouro: fora a exigência de despertar o sétimo sentido, é preciso ser aceito por uma Armadura de Ouro (sempre a do mesmo signo do zodíaco que o personagem) mas também é necessário ser escolhido pelo Mestre do Santuário para tanto.
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| Shion de Áries, Regulus de Leão e Sísifo de Sagitário preparando o espetacular Exclamação de Atena: um pequeno big bang concentrando o poder de três Cavaleiros de Ouro! |
Geralmente, isso envolve uma Missão perigosa em prol de Atena, do Santuário e da humanidade como um todo, que testará a lealdade do Cavaleiro para com Athena, a submissão dele às ordens do Santuário, o poder do mesmo e, talvez mais do que todo o resto, o caráter do candidato em potencial: mesmo falho (leia-se, com desvantagens na ficha) isso não impede que Cavaleiros do Santuário consigam tomar decisões acertadas deliberadamente pensando no bem da humanidade e de Athena.
Finalmente, como já discutido, Cavaleiro de Ouro é um novo superkit.
Cavaleiro de Ouro
Exigências: Armadura Suprema ou Parceiro (Armadura de Ouro); Ataque Especial, Patrono (seu deus ou instituição religiosa), Poder Oculto, Sentidos Especiais (todos), Telepatia; Código de Honra (qualquer), Restrição de Poder (não pode usar armas mágicas); escala Kiodai ou superior.
Função: atacante ou tanque.
Explodir o Cosmo: seu domínio sobre o cosmo o torna imune a surpresas. Você jamais fica indefeso ou surpreso, mesmo quando não tem liberdade de movimentos. Você também automaticamente tem acesso a todas as informações listadas na vantagem Telepatia contra todos os oponentes num combate sem precisar gastar PMs. Finalmente, a primeira vez que você ficar perto da morte num combate, você pode realizar uma ação imediatamente.
Golpe Assinatura: escolha uma magia, poder ou vantagem que gera uma FA. Enquanto a usa, você tem um crítico automático na FA, sem precisar rolar um dos dados, e gasta apenas metade dos PMs nela. Além disso, uma vez por combate você pode atacar um oponente com ela como se o oponente estivesse indefeso, não importando sua escala — este é o momento em que os Cavaleiros de Ouro aproveitam para explicar como o golpe funciona!
Guerra dos Mil Dias: escolha um oponente a distância de visão (Manual 3D&T Alpha, p.81) e na mesma escala que a sua ou superior. Você e ele não podem somar a H em qualquer rolagem contra outros oponentes até o final do combate ou até um dos dois ser derrotado. Além disso, contra este inimigo, suas magias, vantagens e poderes custam apenas metade dos PMs.
Oitavo Sentido: também chamado arayashiki, este é o sentido dos mortos, o qual a maioria dos Cavaleiros de Ouro desperta no momento de sua morte. Aqueles que conseguem atingir a iluminação e escapam do ciclo de reencarnação budista calculam seus PMs como Rx10, podem continuar lutando normalmente até atingir um resultado 6 em testes de morte e podem escolher o resultado em seus testes de morte, contanto que seja um resultado pior que o atual.
Por Atena!: enquanto estiver lutando em nome de Atena, suas defesas sobem um passo. Vulnerabilidades se tornam Armadura regular; Armadura regular se torna Armadura Extra; e Armadura Extra se torna Invulnerabilidade. Você também pode utilizar a vantagem Armadura Suprema (Tormenta Alpha, p.58) e caso já tenha a vantagem gasta 1PM para utilizá-la. Caso por algum motivo você desagrade Atena — e perca sua Armadura de Ouro no processo — você perde o uso deste poder.
Tornando-se um Cavaleiro de Ouro: a missão para se tornar dourado envolve encarar sozinho um oponente em escala superior que se opõe à Athena, afim de se provar frente à deusa e ao Santuário, para então poder ser aceito pela Armadura de Ouro do seu signo.
O gênio dourado do século XVIII
O jovem Regulus se tornou Cavaleiro recentemente, com apenas 15 anos de idade completos, o mais novo de sua época.
Embora seja filho de Illias de Leão — mais poderoso Cavaleiro de Ouro de sua geração — e sobrinho do atual Cavaleiro de Sagitário, Sísifo, definitivamente não se trata de um caso de nepo-baby no Santuário: Regulus rapidamente alcançou o sétimo sentido, passando anos nos ermos defendendo a Armadura de Leão após a morte de seu pai.
Seu tio Sísifo, em procura do irmão, encontrou o sobrinho e enxergou o potencial bruto de Regulus e o convenceu a integrar o Santuário, onde poderia desenvolver suas habilidades.
Se parece que o único talento de Regulus é a rapidez no desenvolvimento, se engana: o rapaz consegue reconhecer movimentos e se adaptar ao campo de batalha com velocidade quase instantânea, chegando ao ponto de com efeito reproduzir os golpes únicos dos seus oponentes, tamanha sua velocidade de aprendizado e reprodução.
Dada sua idade, é claro que se trata de um menino — otimista e cheio piadas e marra — mas Regulus encara com responsabilidade suas incumbências para com Atena e o Santuário e é combatente tão focado e dedicado quanto qualquer dos outros Cavaleiros de Ouro, o que lhe conquistou a confiança e respeito do Santuário: todos sabem que, apesar da idade, na hora da batalha ele leva sua obrigação e companheirismo a sério.
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O jovem Regulus, Cavaleiro de Ouro de Leão: prodígio aprende rápido! |
Regulus de Leão (50K)
F4, H8, R6, A5, PdF4; 50PVs, 60PMs
Kits: Guerreiro Veloz (Ataque Surpresa, Velocidade da Luz); Cavaleiro de Ouro (Guerra dos Mil Dias).
Vantagens: Armadura Suprema, Ataque Especial (Plasma Bolt; PdF, II), Ataque Múltiplo, Imitar, Memória Expandida, PMs Extras x3, Poder Oculto, PVs Extras x2, Sentidos Especiais (todos), Técnica de Luta (Aprendiz Veloz, Explosão de Velocidade), Telepatia, Tiro Múltiplo.
Desvantagens: Código de Honra (dos Heróis), Restrição de Poder (não pode usar armas mágicas).
Táticas
Regulus tem duas grandes vantagens em combate: em primeiro lugar, graças a Imitar, Memória Expandida e a manobra Aprendiz Veloz (Tormenta Alpha, pg.76) ele consegue usar o que o oponente tem de melhor contra ele mesmo; e, segundo, ele tem consegue realizar um enorme número de movimentos e ataques por turno.
Em outras palavras, o Cavaleiro de Leão tem superioridade tanto em termos de economia de ações, quanto sempre tem uma surpresa embaixo da mangá: basta usar Telepatia para conhecer a ficha do oponente e procurar qual poder da ficha a mesma é mais vulnerável.
Se parece que Regulus tem poucos PVs e PMs, não se esqueça que o poder Guerra dos Mil Dias diminui pela metade todos os gastos em PMs deste guerreiro de Atena — contanto que seja contra um mesmo inimigo: em duelos, o Regulus definitivamente se sobressai, enquanto em combates contra mais de um inimigo poderoso a performance dele cai significativamente.
Finalmente, e para manter o conteúdo consistente, fiquem com a descrição da vantagem Imitar:
Imitar (2 pontos)
Você consegue imitar as características, vantagens, perícias, poderes, etc., de outras pessoas. Faça um ataque corpo-a-corpo contra o alvo. Se a sua Força de Ataque vencer a Força de Defesa, o alvo não sofre dano. Mas, com uma ação em seu próximo turno, você pode gastar Pontos de Magia para imitar uma ou mais características do alvo. Você pode imitar características de diferentes pessoas, mas cada pessoa imitada exige uma ação diferente.
Cada PM gasto imita o equivalente a 1 ponto de personagem em características. Assim, para imitar Força 3, você precisa gastar 3 PMs. Para imitar Genialidade (uma vantagem de 1 ponto), precisa gastar 1 PM. Este é um poder sustentado por turno.
O Cavaleiro de Ouro em outros cenários de campanha
De certa forma, o superkit contempla bem a maioria dos mais poderosos guerreiros dos deuses e Os Cavaleiros do Zodíaco: mesmo os Juízes do Inferno de Hades — e os demais Espectros de Estrela Celestial — assim como os Generais Marina de Poseidon são bem cobertos, o que na prática implica que o superkit é suficientemente abrangente para se encaixar em outros cenários facilmente.
Em Tormenta, basta algum deus mais marcial ou cujas áreas de domínio envolvam o desenvolvimento pessoal — como Kallyadranoch ou Keenn, ou os óbvios Valkaria e Tauron — mas a maioria deles têm motivos para ter um ou mais destes guerreiros únicos: a idéia de uma Armadura de Ouro (e Amazonas que escondem o rosto) combina facilmente com Azgher, o que por si só puxa a idéia de Cavaleiros de Tenebra.
O "mentalismo" de CdZ também dialoga facilmente com elementos de Tormenta: para dar exemplo, Saga de Gêmeos provavelmente seria Cavaleiro de Nimb em Arton, ao passo que seu irmão gênero, Kanon, talvez fosse um Cavaleiro de Sszzaas infiltrado.
Algo similar pode ser dito da maioria dos outros cenários com deuses ou que por algum motivo tenham a presença de algum tipo de poder que rege a lógica interna, elemento comum em narrativas orientais: qualquer cenário em que caiba o Monge de D&D também tem espaço para trabalhar os Cavaleiros de Ouro.
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Crossover de respeito: o Cavaleiro do Rato encarando o lendário Capitão Ninja?! |
Da mesma forma, os battle shonen também exigem pouca adaptação — quase nenhuma na maioria das vezes — e campanhas baseadas em jogos de luta encontram no Cavaleiro de Ouro muitas vezes a figura de um artista marcial esotérico.
Para falar a verdade, a idéia de um artista marcial psiônico, trajando uma armadura dourada e verdadeiro cruzado de uma divindade particular com quem mantém uma hotlinenconstante é um conceito tão diferente e colorido que encontra lugar na maioria dos animes e videogames por aí agora — principalmente crossovers, onde há pouca resistência a conceitos mais "estrangeiros".
Conclusão & comentários finais
Não nego que minhas principais inspirações para este artigo são o fato de que estou relendo The Lost Canvas, mas também a ausência de superkits que ficou após a publicação (e o sucesso na comunidade) do Tormenta Alpha: vinte kits foram muito pouco e a idéia não podia permanecer contida apenas no cenário do jogo.
Como eu — e os poucos fãs também investidos do 3D&T Alpha — sentia bastante falta de mais superkits, resolvi aproveitar o Cotidiano Nervoso para ocasionalmente divulgar algum superkit que criei: não posso prometer periodicidade, mas espere por mais superkits por aqui.
Não faltam em animes, mangás e videogames fontes para mais poderes exagerados em escala sugoi ou maior.
Também sou desses que cresceram com Os Cavaleiros do Zodíaco e outras obras nipônicas na Manchete que conquistaram espaço no coração do público brasileiro e tive experiência em primeiro mão da explosão do interesse que foi por animes e cultura pop japonesa nas décadas seguintes: ainda se usava o termo "febre" quando Pokémon também explodiu em popularidade no mundo inteiro — inclusive no Brasil — e foi um público que cresceu para tudo quanto é lado e, por aqui, encontrou lugar também na saudosa Dragão Brasil.
O 3D&T de certa forma é consolidação da mistureba e sua sobrevivência atesta a favor da longevidade de um público que consome mais mídias nerds do que tem consciência — quem sabe um dia não faça inveja no próprio Dohko de Libra, o "roxinho original" Mestre Ancião, por viver tanto!
Para os mais curiosos: não sou do signo de Leão, apenas considerei como dos melhores exemplos para utilizar a figura do Regulus — que faz alguns paralelos com o vilão Hashmal, o lucavi de Leão em Final Fantasy Tactics, que no original do PlayStation 1 também era chamado de "Regulator": Regulus é o nome da estrela mais brilhante da constelação de Leão.
Quem sabe um dia Cavaleiros volte a aparecer por aqui — não nego que gostaria de pensar em fichas para os demais Cavaleiros de Ouro de The Lost Canvas — mas por hora o plano é pensar em mais superkits, que devem voltar a aparecer em breve também em obras que são (mais ou menos) spin-offs.









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