Uma resenha para Goblin Slayer TRPG
Foi em 2022 que a editora americana Yen Press resolveu diferenciar um pouco seu catálogo de mangás e light novels: trouxe dois RPGs do extremo oriente aqui para o ocidente.
A editora é conhecida por ser uma das maiores norteamericanas quando o assunto é os mangás, trazendo vários títulos de fantasia, isekai e outras obras da editora Kadokawa — também pudera, a japonesa é dona de mais da metade da Yen Press.
Naquele ano, foram lançados primeiro o RPG Konosuba: God's Blessing on This Wonderful World! TRPG e menos de uma temporada depois Goblin Slayer Tabletop Roleplaying Game.
A fórmula já é conhecida dos japoneses: quanto mais uma obra da cultura pop faz sucesso, mais cacareco aparece à venda. Romances no formato light novel se tornam mangás, mangás se tornam anime, animes vendem merchandise e afinal videogames, roupas, acessórios, figures e action figures e uma penca de outros produtos diferentes acabavam movimentando algumas indústrias inteiras - não é negligenciável o alcance e os números da cultura pop no Japão.
Os RPGs de mesa seguem um caminho similar e, quando alguma obra de fantasia faz muito sucesso por lá, não é raro ganhar um joguinho próprio. Desde Dark Souls e Elden Ring até Fate/Stay Night, Mobile Suit Gundam e mesmo Medabots já receberam RPGs de mesa na terra do sol nascente.
Não é raro a maioria ter destino similar a produtos também parecidos daqui: são encarados como uma espécie de caça-níqueis, vendem ao menos o suficiente para se pagarem e terminam como página em enciclopédias virtuais das obras que lhes deram origem.
Por outro lado, de vez em quando algum destes jogos de RPG se destaca. Ouso dizer que é o caso de Goblin Slayer TRPG.
Do que é feito um livro
Este é um livro de qualidades simples: capa mole, brochura em cola, páginas de papel pólen de baixa gramatura e alta transparência - não espere um livro vistoso para chamar a atenção na estante, impressionar visitas ou instagramável.
Fora o enorme número de páginas, as dimensões são similares a um mangá da editora Panini.
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| Da esq. para a dir. um mangá da Panini, a edição brasileira de Your Name pela JBC, Goblin Slayer TRPG e a edição brasileira de D&D5e. |
O miolo é completamente em preto-e-branco e, das poucas imagens que dispõe, recicla a maioria: de cabeça, apenas as imagens que ilustram a estória de abertura e as que abrem cada capítulo são originais; a maioria das demais estão presentes apenas no capítulo 4, que descreve o mundo de Goblin Slayer.
Como resultado do papel de baixa qualidade e das poucas cores, a maioria das ilustrações apenas cumpre seu papel — as do capítulo 4 às vezes chegam a ser de difícil distinção, principalmente como sofreram resizing, o que contribui para dificultar o reconhecimento de detalhes.
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| Goblin Slayer TRPG e Shinobigami: a diferença entre edições norteamericanas e japonesas. |
Afinal de contas, é um projeto gráfico simples e tem inspiração óbvia: no Japão, RPG de mesa não raro é impresso no mesmo formato, barato, acessível e de fácil transporte e armazenamento — parecidos com os mangás de lá — mas também bastante descartável e que não foi necessariamente pensado para durar, para falar a verdade.
Na prática, isso tudo quer dizer algo simples: Goblin Slayer TRPG precisa compensar em outro aspecto e claro que a resposta para isso é o conteúdo.
Regras de jogo
Acontece que este RPG tem certo pedigree: não apenas a obra tem inspirações em antigos jogos eletrônicos de dungeon crawl, em edições antigas de D&D e na série de livros-jogos Fighting Fantasy, como o livro revela que o autor de Goblin Slayer também acompanha há tempos os RPGs de mesa da editora Group SNE.
A pequena editora tem o diferencial de ser casa do RPG japonês de maior sucesso no próprio Japão — o jogo Sword World — como também é a editora original deste Goblin Slayer TRPG.
Para completar, o game designer deste RPG é Tadaaki Kawahito, que trabalhou na edição 2.5 do próprio Sword World, assim como outros materiais para o RPG japonês e a mesma editora.
Afinal de contas, Goblin Slayer TRPG toma muito emprestado de Sword World — a ponto de ser hoje a versão mais acessível do RPG para nós, ocidentais — e ainda assim consegue entregar um jogo suficiente distinto: há muita inspiração nas regras do tradicional RPG japonês, mas não faltam motivos para tratar este livro como um jogo diferente.
Ao longo de suas mais de 600 páginas, temos o que é em absoluto um jogo completo: além daquilo que se espera — regras para criação de personagens, descrição de mundo, regras básicas e de progressão — há uma seleção grandinha de itens (50 páginas) e magias (70 páginas) assim como mais de 50 páginas de monstros e bastante opções de jogo para progredir personagens. Conteúdo é algo que não falta aqui, mas principalmente ao contrário de outros RPGs — inclusive Sword World — este jogo entrega tudo o que você e seu grupo precisam para jogar num volume único.
Em termos de regras, o jogo usa mecânica básica rolando 2d6 e somando stats básicos e bônus de Classe para tentar rolar acima de um número alvo — nada muito diferente do que jogadores de D&D já estão acostumados a fazer.
A diferença fica nas Classes.
Ao contrário de outros jogos, Goblin Slayer TRPG toma as Classes como Sword World: você não necessariamente adquire habilidades novas com o acúmulo de experiência e níveis, mas quanto maior seu nível numa Classe, mais seu personagem soma nas jogadas daquilo que a Classe faz bem.
Um Fighter soma seu nível de Classe a qualquer jogada com armas corpo a corpo, para se esquivar de ataques e também para bloquear com um escudo — mas nada de ataques à distância, terreno do Ranger neste jogo, uma marca dos guerreiros de jogos japoneses, que focam no combate próximo.
Além do Fighter, temos o Monk, que faz exatamente o que você espera dele: um outro combatente corpo a corpo, que troca uma seleção mais limitada de armas e armadura por mais opções de progressão; o Scout, essencialmente um ladino, somando em um monte de jogadas relevantes fora de combate; e o Ranger, um combatente à distância que compartilha um pouco da versatilidade do Scout.
Completam o número de Classes quatro usuários de magia: o Sorcerer e o Priest, respectivamente um mago e um sacerdote mais tradicionais, tipos de conjuradores arcanos e divinos que não se dão muito bem com armaduras pesadas; o Shaman (herança de Record of Lodoss War e Sword World) uma espécie de evocador dos elementos clássicos gregos; e finalmente o Dragon Priest, a única Classe 100% original e oriunda dos próprios romances de Goblin Slayer, uma espécie de mago que acredita em buscar o poder para finalmente alcançar a grandeza dos próprios dragões, que mecanicamente foca em buffs pessoais e na invocação de ajudantes para combates.
Se parece um número pequeno de Classes, entretanto, saiba que o sistema parte do princípio que você montará fichas com duas ou até três Classes, misturando-as para gerar personagens mais únicos — então combinações como um Elf Ranger/Shaman, um Dwarf Fighter/Priest ou um Human Monk/Dragon Priest desde o primeiro nível são absolutamente comuns.
Finalmente, as regras giram ao redor da administração de Wounds, Fatigue e da Attrition Track — três medidas de todo personagem que surpreendentemente são mais fatais do que parecem: um personagem com Wounds suficientes simplesmente morre, quando acumula Fatigue a performance do personagem vai caindo até outra forma de morrer e finalmente a Attrition Track garante combates mais rápidos e exigentes também leva personagens a acumularem mais Fatigue.
Não é um jogo em que a diferença entre 1PV e PVs cheios é apenas um número maior que outro e o jogo acaba que pune os jogadores que não aprenderem a administrar recursos direito.
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| Os flowcharts do jogo. |
Finalmente, o jogo ainda facilita para jogadores novos: há flowcharts explicando as jogadas mais comuns, um método de criação (bastante comum em RPGs japoneses) que usa fichas prontas disponíveis para acelerar o processo, assim como duas aventuras em sequência voltadas para jogadores iniciantes.
Se parece bastante coisa, é porque é mesmo: não é fácil hoje encontrar tanto conteúdo num livro de RPG neste preço, principalmente um jogo importado.
E custa quanto?
Os US$20 cobrados em Goblin Slayer TRPG — preço de capa — soam caros para o brasileiro, embora mais relativos para os norteamericanos: mais de R$100 por um livro desta qualidade e dimensões realmente parece acima do esperado para nós. O único motivo que sustenta esse preço é o tanto de páginas que acaba por fazer deste livro um considerável volume.
Como dito antes, o livro compensa com conteúdo, um RPG completo para jogar e autoria de nomes conhecidos e consagrados da cena RPGística japonesa.
Há ainda um detalhe. O cenário de Goblin Slayer é um tanto quanto genérico, por falta de termo melhor, o que revela algo que pode ser uma benção ou maldição, a depender do grupo: para muitos, permite ao grupo usar seu próprio cenário de referência sem muita adaptação; mas eu não diria que este RPG é exatamente feito para os fãs de Goblin Slayer.
A obra, que ganhou espaço entre as light novels por cenas apelativas de violência e erotismo, chamou muito a atenção com o lançamento de seu anime: um primeiro episódio polêmico, com cenas de gore e estupro deram a entender não apenas que se tratava de uma obra adulta e que tentava agradar um público que confundia estes elementos com "realismo" quando se revelou mais um anime de fantasia inspirado por RPGs ocidentais sem necessariamente se tratar de mais um isekai. Ao invés de um protagonista atropelado por um caminhão e que recebe uma segunda chance em outro mundo, em Goblin Slayer o protagonista é apenas um cara esquisitão que jamais tira a armadura e o grande objetivo de vida dele é exterminar goblins.
Como ele conseguiu atrair um grupo de aventureiros capazes e viveu grandes aventuras, conquistou donzelas e salvou reinos é matéria de ler o mangá e assistir o anime, mas este RPG tem muito pouco disso afinal de contas: é mais um RPG autônomo — talvez uma oportunidade de seu autor escrever um jogo próprio — do que um tie-in que buscou surfar na onda de um anime popular.
Para os demais jogadores, ficam as referências pontuais: desde coisas como um chicote conhecido como Vampire Killer, até uma armadura literalmente chamada Bikini Armor. Mas para mim o mais chamativo foram os monstros Firebrand e Blazon - referências óbvias ao jogo do Super Nintendo Demon's Crest, ou Demon's Blazon no Japão — e que suspeito entrarem no jogo apenas porque sua série de origem tem goblin no nome.
Conclusão & comentários finais
Se você se interessa ou se interessou por RPGs de mesa japoneses, Goblin Slayer TRPG é um ótimo título de entrada: não apenas dobra como jogo adjacente ao seminal Sword World, como também tem sua parcela de novidades que tornam este RPG fresco em relação ao seu material de referência.
Para os fãs de Goblin Slayer, é um jogo que se muito funciona, mas talvez fique uma impressão de se tratar de mais uma adaptação, que se afasta dos romances, do mangá e até mesmo do anime — três obras que também não dialogam tanto assim entre si.
Para todos os RPGistas, por outro lado, há muito que se aproveitar aqui: o elogio pelo tanto de conteúdo disponível apenas significa que este é um RPG diferente o suficiente para substituir D&D entre aqueles grupos mais enfastiados com o sistema, mas que também traz material para muitas aventuras e campanhas — tudo num livro só.
Sobretudo, o modelo mais econômico do livro também é saudável ao nosso mercado nacional e com a atual facilidade de importação temos mais opções competitivas hoje do que jamais no RPG brasileiro.
Infelizmente, parece que a iniciativa da Yen Press não deu tão certo assim: desde Goblin Slayer TRPG — lançado em meados de 2022 — que a editora não lançou mais RPGs de mesa, nem norteamericanos, nem japoneses. A essa altura do campeonato, eu não esperaria mais nenhum.
Até onde sei, mesmo no Japão não há muito mais material ou suplementos para o jogo — aparentemente foi lançado apenas um livro de replays, contendo sessões de Goblin Slayer TRPG jogadas por japoneses e transformadas em prosa— mas mesmo isso apenas atesta a favor deste RPG, um jogo completo apenas esperando para ser jogado.







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